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sexta-feira, 1 de julho de 2011

Costumes Angolanos: 1 - Rito de Passagem




Foto: Terras do Mantorra


Sem dúvida, uma das coisas que surpreende em Angola é o rito de passagem de uma pessoa dada as proporções que o culto iniciado na ocorrência de um óbito gera.

Aqui, em vez de velório, se emprega a palavra óbito. "_ Há um óbito nessa casa. Essa pessoa parou " poderia dizer um angolano ao ver um velório. Talvez você ouvisse um comentário, caso a pessoa fosse conhecida, dizendo "_ Esse cóta era bué fixe" que simplesmente significa "Esse senhor era uma boa pessoa".

Confirmado a morte de uma pessoa é comum a movimentação de conhecidos, parentes e até pessoas estranhas no local do velório. Antes mesmo do corpo chegar as pessoas já se fazem presentes e a movimentação em torno da cozinha - que muitas vezes é improvisada no terreiro pela necessidade de ampliação - aumenta. Comidas típicas como a chopa assada ( tilápia), banana pão assada, fungi (uma espécie de purê feito com mandioca) e kizaca ( um refogado de folhas da mandioca) são os pratos que alimentam aqueles que em sinal de compaixão permanecem no local dando seu apoio a família. Bebidas como cerveja, vinho e refrigerantes também fazem parte do cardápio e caixas com estes líquidos chegarm em kandongas (Vans, geralmente Toyotas Hiace azuis), carros e motos (motas, como dizem aqui).

Começa ali um ritual funerário que dura 7 dias em média, mas que também pode durar 30 dias conforme relato de um amigo angolano. Dia e noite, antes do corpo chegar, durante o velório e após o enterro a rotina é a mesma. Cantos africanos também são entoados em favor daquele que falece. A manutenção de bebidas e comida durante o período é responsabilidade da família, porém são comuns as doações dos que ali participam e assim esse povo vai alimentando não só os estômagos mas principalmente essa tradição angolana.

Ainda sobre o tema há nativos que descrevem essa tradição de uma forma, digamos, bem humorada. O texto abaixo foi retirado de um blog angolano cuja a autoria é atribuída a um anônimo.

Em Luanda agora é assim! As pessoas se produzem todas para ir a um funeral, como se à uma festa de gala se tratasse. Se antes o branco e o preto eram as cores para actos fúnebres, agora, as damas bazam até de vermelho, rosa, amarelo, laranja, quer dizer, só as cores "mais cheguei" para chamar mesmo a atenção.
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Na verdade, os óbitos se transformaram em locais predilectos para desenvolver uma paquera, na ausência de locais públicos de lazer que proporcionem encontros, afinal quem não tem cão nem gato, caça com rato. Há quem diga que as damas vão para ver os Boss’s da família. Ficam de olho bem aberto para marcar qual é o tio que dá mais kumbu. Depois jogam todo seu charme para cima do kota, não importando se casado, solteiro ou viúvo, nem respeitam o luto.

Já os homens, parece que são mais discretos; bazam a estes encontros para beber de graça, consentir uma paquera e, claro, pitar (comer) um coxe, afinal, de graça, bar aberto, boca-livre, não faz mal a ninguém. Os óbitos, há muito que deixaram de ser cerimónias nostálgicas em que os parentes e amigos se encontram para consolar quem perdeu um ente. As Mulalas das kotas deram lugar ao desfile de moda e posses. Tás a ver aquela expressão " chá quez da caldo", já ficou ultrapassada. A canjica e o caldo foram superados pelos mufetes, moambas, bolos, doces diversos, rissóis, tortas e pudins a maneira.
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Da kissângua, coitada, já nem se fala mais, nem nos círculos mais conservadores das famílias, de vez em quando, aparece nas praças e paragens de candongueiro mas, com novo nome para disfarçar: "Sumol em Saco". Nada de coisa de pobres (kissângua) nos óbitos a onda agora é Cuca, Sagres, Castle, Carlsberg, Coca-Cola e associadas, Sumol e até a forasteira Kiss, agora também Blue's, por que as Youk´s sumiram do mapa.
Quer dizer, até aquelas cotas que produziam os pitéus dos óbitos naquelas panelas bué gudas (grandes) também estão desempregadas; foram substituídas pela contratação dos serviços de bufetes e catering.
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Óbito na cidade da Kianda é festa grande. Já há quem prefira patar nos kombas (óbitos) do que ir aos casamentos; nos óbitos não olham nas caras nem querem saber se é parente do noivo ou da noiva para te servirem. Só falta mesmo contratar DJ´s para animar o bo... digo o óbito, com músicas da igreja, já que os kuduristas já fazem questão de cantar daquele jeito neh.
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Nesses encontros não podia faltar a turma dos Bufus, aqueles que definem a qualidade dos óbitos, segundo critérios já bem definidos: Adesão de pessoas famosas, número de carros, que inclui os da moda, último grito, os que mais choram, quem desmaia mais, a quantidade e qualidade do pitéu e bebida etc. quem não consegue um óbito nestes moldes é logo taxado de "Jimba Diafu", "Dibinzero".
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É... meu, morrer na Nguimbe (capital) não é negócio para qualquer um!!!

E não pára por aí, o que dá mais pontos é o lugar onde será o enterro. Tem que ser Alto das Cruzes ou Santa Ana, porque o resto é mesmo resto. O óbito pode ter tudo, mas se o funeral não for nestes lugares perde todos os pontos. Diante disso, começa um novo dilema já que conseguir espaço nestes cemitérios não é coisa fácil e carece de "cunha forte", mas também, 14 ou kamama não são cemitério para VIP´s, tipo, não vão ser comidos também pelos sálálés. Então o defunto chega mesmo a ficar uma semana ou mais a espera que se decida sobre seu próximo endereço.
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Mas nem tudo mudou, ainda se vê aquelas kotas que sempre exageram na hora de exprimir sua tristeza. Aquela kotas que vão chorar no Kinaxixi, quando o óbito é no Marçal, para depois reclamar dos rins.
Ainda é a oportunidade ímpar para ver todos os parentes, onde os que menos choram são as vítimas quando se procura o culpado pela morte: "Eie u Mulogi". Ele é o feiticeiro, vês que nem chora, eu já sabia.
Os vizinhos da rua toda continuam com aquele mau e velho hábito de faltar ao serviço durante um mês sob pretexto de óbito na casa do vizinho que em vida nem sequer os cumprimentava.


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